O Retorno do "Sétimo Sentido": 44 Anos de
Mistério, Emoção e o Brilho Eterno de Regina Duarte
Preparem os corações e acendam as estrelas! Depois de 44
anos guardada no imaginário dos noveleiros e sem nunca ter sido reprisada, uma
das obras mais fascinantes da teledramaturgia brasileira clama por luz. Sétimo
Sentido, exibida originalmente pela Rede Globo entre 29 de março e 8 de outubro
de 1982, é muito mais do que uma novela: é a última obra-prima concebida
integralmente pela inigualável Janete Clair, a “Mestra dos Sonhos”.
E a data não poderia ser mais simbólica. Esta celebração
comunga com o marco histórico dos 60 anos de carreira de Regina Duarte, a maior
estrela das telenovelas brasileiras, cuja entrega visceral deu alma a um dos
maiores desafios de sua trajetória artística.
Uma Trama Além da Imaginação
Dirigida por Roberto Talma, Jorge Fernando e Guel Arraes ao
longo de 167 capítulos, Sétimo Sentido mergulhou o Brasil em um universo de
mistérios, reencarnações e paixões avassaladoras.
A história acompanhava Luana Camará (Regina Duarte), uma
mulher que retorna ao Brasil para recuperar a fortuna da sua família, usurpada
por um golpe de Antônio Rivoredo. O grande nó da trama? Ela se apaixona
profundamente por Rudy (Fábio Jr.), filho de seu pior inimigo. Mas o seu maior
obstáculo — e uma das figuras mais marcantes da história — era Tião Bento, o
ambicioso e implacável administrador dos negócios dos Rivoredo.
A grande reviravolta da novela, que arrebatou o público a
partir de sua segunda metade, deu-se pelo título da obra: Luana possuía o
"sétimo sentido", manifestando capacidades paranormais profundas ao
encarnar o espírito da falecida atriz italiana Priscilla Capricce. O ápice da
ironia dramática e do fascínio do público era ver que, enquanto Luana odiava
Tião Bento, a espirituosa Priscilla acabava se casando com ele em uma
deslumbrante cerimônia num ritual cigano.
A novela também brilhava em seus núcleos paralelos, como o
romance entre Danilo e Sandra (irmã de Rudy); o casamento tempestuoso de Rudy
com Helenice; e as trapalhadas e romances de Santinha Rivoredo, mãe dos
rapazes, que encontrava novo amor no malandro Valério.
O Desafio Duplo e o Laboratório de Janete Clair
Para Regina Duarte, o papel duplo foi uma verdadeira
"aventura linda e estimulante". Além da complexa Luana, dar vida a
Priscilla Capricce exigia uma composição cênica exuberante. A própria atriz
revelou em entrevistas que a espevitada Priscilla serviu como a precursora da
inesquecível Viúva Porcina, que consagraria Regina em Roque Santeiro (1985).
O tema da dualidade — tão caro a Janete Clair, que desde os
tempos de Irmãos Coragem e Selva de Pedra flertava com sósias, gêmeos e trocas
de personalidade influenciada por Dostoievski — atingiu um ápice metafísico
aqui. No capítulo 148, uma inesquecível cena de regressão espiritual revelou a
ligação kármica entre as duas: em vidas passadas, em 1910, elas haviam sido as
gêmeas Luciana e Maria Pia, criando uma dívida de gratidão a ser resgatada no
presente.
Para erguer essa trama espírita, paranormal e
parapsicológica, Janete Clair estudou o tema durante um ano inteiro com a assessoria
da parapsicóloga Thelma Tablada, gerando debates intensos na época com
estudiosos do espiritismo sobre os limites da possessão e da mente humana.
Bastidores Secretos: A Censura e o Mistério do Autor Oculto
O caminho de Sétimo Sentido não foi fácil. Desde o primeiro
capítulo, a novela sofreu censura pesada. Janete Clair protestou abertamente na
imprensa contra os cortes arbitrários de Brasília, que deixavam a trama
"sem pé nem cabeça". O público, injustamente, criticava a falta de
sensualidade inicial entre Rudi e Luana, sem saber que todas as cenas de beijos
entre os protagonistas eram impiedosamente tesouradas.
Além disso, nos 40 capítulos finais, Janete descobriu uma
doença e precisou passar por uma cirurgia. Para preservar a autora e evitar alarde,
a Globo escalou Silvio de Abreu para escrever os capítulos finais na bacia das
almas, trabalhando em sigilo absoluto: Silvio escrevia, Janete orientava e
revisava.
Curiosidades que Marcaram Época
Memória Teatral: Duas sequências ficaram eternizadas:
Priscila Capricce no palco interpretando Branca Dias, de O Santo Inquérito de
Dias Gomes — personagem que a própria Regina Duarte havia defendido no teatro —
e o casamento cigano de Priscila e Tião Bento.
Capa de Revista: Tamara Taxman fez tanto sucesso com a
inesquecível personagem Gisa que estampa a cobiçada capa da revista Playboy em
setembro de 1982.
Abertura Inesquecível: O rosto de Regina Duarte flutuando
suavemente numa paisagem celeste, entre estrelas, ao som melancólico e poético
de "Vitrines", de Chico Buarque, é uma das aberturas mais belas da
história da TV.
Trilha Sonora de Luxo:
Nacional: Gilberto Gil ("Esotérico"), Rita Lee
("Atlântida"), Djavan ("Faltando um pedaço"), Maria
Bethânia, Ney Matogrosso e Marina Lima.
Internacional: Elton John ("Empty Garden"), Duran Duran, Udo Jurgens, Adrian Gurvitz e Vangelis ("Chariots of Fire").
O Legado de uma Despedida
Sétimo Sentido fechou as cortinas deixando uma mensagem
eterna cunhada pela pena ímpar de Janete Clair, proferida pouco antes de nos
deixar:
"Eu gostaria que o ser humano acreditasse que existe
uma força capaz de mudar a sua vida. É bom confiar em si mesmo e esperar um
novo amanhecer."
Completando 44 anos de seu lançamento sem nunca ter sido
reprisada, a obra clama por um resgate na íntegra no streaming. É a grande
oportunidade de as novas gerações descobrirem o vigor criativo de Janete Clair
e aplaudirem de pé os 60 anos de glória de Regina Duarte, a soberana absoluta
dos nossos corações televisivos.

















































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